Projeto Farol RS · Pesquisa HCPA · UFRGS

Dois anos depois da enchente:
o que melhorou, o que resiste e o que protege

Desde maio de 2024 acompanhamos a saúde mental de moradores do Rio Grande do Sul atingidos pela maior catástrofe climática da história do estado. Esta página resume, em linguagem simples, o que os dados nos contam até agora — e o que podemos fazer com isso. Os resultados são preliminares e parciais (coleta de 24 meses ainda aberta); as análises revisadas serão divulgadas após a conclusão desta onda.

Laboratório de Pesquisa em Psiquiatria Psicodinâmica · UFRGS/HCPA/CAPES Comitê de Ética HCPA · CAAE 80017124.7.0000.5327 Instrumentos validados: PHQ‑9 · GAD‑7 · PCL‑5 · CBI · ETMCQ‑R‑6 Etapa de 24 meses em andamento — dados parciais de 27/jun/2026
7.780+respostas desde maio de 2024
1.150+pessoas acompanhadas ao longo do tempo
593já responderam à etapa de 24 meses (coleta aberta)
256completaram todas as avaliações de 6, 12 e 24 meses

01A travessia em cinco tempos

Porcentagem de participantes com sintomas significativos em cada fase do estudo. A leitura é clara: o sofrimento foi muito alto no primeiro ano, caiu de forma importante até os 6–12 meses — e depois parou de cair.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 47%48%32% 43%32% 40%24%23%23% Durantemai/jun 24 Logo apósjun–out 24 6 mesesnov/dez 24 12 meses2025 24 mesesmai/jun 26
TEPT provável (PCL‑5 ≥ 38) Depressão — triagem positiva (PHQ‑9 ≥ 10) Ansiedade — triagem positiva (GAD‑7 ≥ 10)

Cada ponto representa quem respondeu naquela fase (amostras transversais; o TEPT só pode ser avaliado a partir de 30 dias do trauma). Nas mesmas 256 pessoas seguidas de 6 a 24 meses, o padrão se repete: TEPT provável caiu de 28,1% para 23,4%.

O que isso significa: a maior parte das pessoas se recupera — e isso é importante dizer. Mas a melhora espontânea perde força depois do primeiro ano. Quem chega aos 12 meses com sintomas tende a continuar com eles aos 24, a menos que algo mude: é onde apoio, tratamento e reconstrução podem ajudar (a ajuda serve em qualquer momento — e, em geral, quanto antes melhor).

02O que cede e o que resiste

Seguindo as mesmas 256 pessoas de 6 a 24 meses, os sintomas de trauma não se comportam todos do mesmo jeito. Intensidade média de cada grupo de sintomas (0 a 4):

📉 O que cede com o tempo

Revivência (memórias, pesadelos) — 6m1,38
Revivência — 24m (−20%)1,11
Humor e cognição negativos — 6m1,22
Humor e cognição negativos — 24m (−15%)1,03

As memórias intrusivas e o humor deprimido associado ao trauma são os sintomas que mais respondem à passagem do tempo — sinal de que a experiência vai sendo digerida e integrada.

🧱 O que resiste

Evitação — 6m1,46
Evitação — 12m (subiu)1,52
Evitação — 24m (ainda a mais alta)1,36
Hiperativação (alerta, sobressalto) — 24m1,25

A evitação — não pensar, não passar pelos lugares, não falar no assunto — foi a única dimensão que aumentou entre 6 e 12 meses e segue sendo a mais intensa aos 2 anos.

🔥 O esgotamento não cedeu

63%

dos participantes apresentam sintomas significativos de esgotamento (rastreio por CBI ≥ 50, não diagnóstico; nesta coorte) aos 24 meses — praticamente o mesmo nível medido durante a enchente (59%). Dois anos de reconstrução cobram um preço contínuo de energia física e emocional, mesmo em quem não tem TEPT.

🕯️ Pensamentos de tirar a própria vida

Entre as pessoas acompanhadas, 22% relatam ter pensado em tirar a própria vida em algum momento desde o início das enchentes (medida acumulada dos 2 anos). Se for o seu caso, você não está sozinho(a): o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas por dia — e conversar ajuda.

03Quanto maior a evitação, mais sintomas — nesta coorte

Evitar lembranças traz alívio imediato — e é uma reação natural. Mas, mantida por muito tempo, ela pode dificultar o processamento emocional da experiência. Nos dados parciais de 24 meses, quanto maior a evitação, maiores todos os outros sintomas de trauma (correlação r = 0,71; nesta coorte, associação transversal, sem direção de causa):

7,714,9 22,830,3 35,1 Nenhuma(n=181) Leve(n=125) Moderada(n=125) Elevada(n=58) Extrema(n=37) Intensidade média dos demais sintomas de trauma (revivência, hiperativação, humor/cognição)

Nesta coorte, pessoas com evitação extrema apresentam sintomas de trauma mais de 4 vezes mais intensos do que as com evitação mínima (comparação transversal entre subgrupos, alguns com n pequeno). Retomar — aos poucos e com apoio — os lugares, conversas e atividades evitados pode ser um caminho a explorar no cuidado — hipótese a ser testada.

04O que protege: rede, apoio e cuidado

Aos 24 meses, três fatores separam de forma consistente quem se recuperou de quem segue sofrendo. Porcentagem com TEPT provável (PCL‑5 ≥ 38) em cada grupo:

🤝 Rede de apoio efetiva

Teve rede de apoio19%
Não teve35%

Nesta coorte, quem pôde contar com alguém apresentou menor chance de TEPT provável (rastreio, não diagnóstico) dois anos depois.

🛟 Suporte psicológico

Não precisou5%
Precisou e recebeu25%
Precisou e não recebeu40%

A necessidade de ajuda não atendida segue sendo o grupo mais sintomático — o mesmo achado que registramos durante a enchente.

🫂 Sentir-se desamparado

r = 0,63

A percepção de desamparo — "senti que não havia com quem contar", "pedir ajuda não adiantaria" — tem correlação forte com a gravidade dos sintomas de trauma aos 24 meses (nesta coorte; associação transversal). O oposto dela (sentir-se visto e amparado) é o eixo do que chamamos de farol da comunidade.

05Perdas materiais e sofrimento mental andam juntos

A relação entre perdas materiais e saúde mental aos 24 meses é em degrau — cada nível de recuperação pendente corresponde a mais sofrimento psíquico:

TEPT provável segundo a recuperação das perdas

Não teve danos materiais10%
Teve e recuperou tudo17%
Recuperou só em parte44%
Não recuperou nada (n pequeno: 9)56%

Nesta coorte, a recuperação material esteve associada a menos sofrimento psíquico — sugerindo que apoiá-la pode importar para a saúde mental. Política habitacional e indenização ágil podem ser alvos de cuidado (associação, não prevenção comprovada).

TEPT provável segundo o tempo que levou para recuperar a vida que tinha

Não teve perdas relevantes (n=190)8%
Recuperou no primeiro ano (n=112)20%
Levou mais de um ano (n=66)38%
Ainda não recuperou (n=92)51%

Nesta coorte, dois anos depois, 1 em cada 5 participantes ainda não recuperou as condições de vida que tinha antes — e nesse grupo, mais da metade apresenta TEPT provável (rastreio). É onde as cicatrizes seguem abertas.

06O que aprendemos — e o que cada um pode fazer

Os dados parciais de dois anos sugerem caminhos possíveis, a confirmar nas análises finais desta coorte, ao alcance de pessoas, comunidades e governos:

🚶Enfrente aos poucos o que você evita.

Voltar gradualmente aos lugares, conversas e atividades evitados — no seu ritmo, com companhia se precisar — é o que mais ajuda a memória do trauma a "assentar".

🤝Cultive e ofereça rede.

Pergunte como o outro está. Nesta coorte, quem teve com quem contar apresentou menos sintomas. Ser farol para alguém também protege quem ilumina.

🗣️Buscar ajuda funciona — e é urgente quando falta.

Sintomas que persistem após meses não são fraqueza: têm tratamento eficaz. Procure a UBS/CAPS da sua região; em crise, CVV 188.

🏠Reconstrução material é saúde mental.

Onde a perda não foi reparada, observou-se sofrimento mais alto nesta coorte. Agilidade em moradia, indenização e infraestrutura pode ser relevante para a saúde mental — e os dados parciais mostram associação em degrau.

💙 Você participou da pesquisa nas etapas anteriores?

A etapa de 24 meses está aberta. Cada resposta refina o mapa que orienta as ações de cuidado no estado. Acesse a página do projeto para responder. Precisando de apoio emocional agora: CVV — ligue 188 (gratuito, 24h) ou procure o CAPS/UBS mais próximo.